Congregação

A FUNDADORA E O INSTITUTO

O Instituto (só mais tarde Congregação) das Irmãs de Santa Doroteia, foi fundado em Quinto-al–Mare, Génova, no dia 12 de Agosto de 1834, por Paula Frassinetti, coadjuvada pelo irmão José Frassinetti, pároco de Quinto.
Paula tinha 25 anos e nascera em Génova, bairro de Portovia, pertencente à paróquia de Santo Estevão, no dia 3 de março de 1809, proveniente de uma família profundamente cristã, em que todos os filhos se consagraram a Deus. De facto os quatro irmãos foram padres e Paula foi religiosa e fundadora. Os pais, João Baptista Frassinetti e Ângela Viale, pertenciam à classe média.

A infância de Paula decorreu num clima de intimidade afetuosa não isento de austeridade, pelo que o pai nem sequer permitiu que a filha frequentasse a escola ou que qualquer pessoa estranha viesse darlhe lições. Aprendeu a ler talvez com o pai mas aprendeu a escrever sozinha, exercitando-se nos cadernos velhos, deixados pelos irmãos. No convívio com os irmãos enriqueceu a sua inteligência viva, servida por uma memória pronta e fiel, chegando a adquirir uma certa cultura, sobretudo no que respeita a teologia dogmática e moral, e à Sagrada Escritura.

As numerosas cartas que dela se conservam não constituem, por certo, um monumento literário: a sintaxe é frouxa, abundam as repetições e aparecem erros de ortografia; no entanto, são escritas num estilo fluente levemente matizado de imagens, e, sempre cristalinamente simples como a água das nascentes, simplicidade que não exclui a veemência severa, em que, cada palavra, densa, fulmina como tempestade.

Tinha Paula nove anos quando lhe morreu a mãe. Se, se considerar que na ordem de idades, Paula ocupava o meio, entre os dois irmãos mais velhos José e Francisco e os dois mais novos, João e Rafael, compreender-se-á não só o vazio como a falta irreparável que se fez sentir naquele lar. Uma tia veio ocupar-se das crianças e do governo da casa, mas decorridos três anos, era a vez de ela entrar na eternidade. Paula, com doze anos, assumiu o papel de dona de casa e tão bem o desempenhou que se tornou imprescindível a todos os membros da família e, sobretudo ao pai.

A pouco e pouco foi-se precisando nela o desejo da vida religiosa, mas quando expôs ao pai o apelo do Espírito Santo, encontrou forte oposição. De momento, não insistiu. Continuou a sua missão de dom de si mesma no lar paterno, consagrou mais tempo à oração, mas a penitência austera em que se exercitava, acabou por lhe arruinar a saúde.

Estava-se em 1830. D. José Frassinetti, o irmão mais velho de Paula, foi nomeado pároco de Quinto-alMare, a cinco milhas de Génova. Consciente das qualidades da irmã, previu o auxílio que ela lhe prestaria no apostolado com a juventude feminina e pediu ao pai que a deixasse ir para Quinto. O pai, mais que nunca precisava de Paula, agora que a surdez o tornava mais dependente; pensando, porém, que a mudança de ares restabeleceria a filha, consentiu na ausência temporária.

Uma vez em Quinto, Paula abriu no presbitério uma escola gratuita para meninas a quem ensinava a ler e a escrever, e instruía na doutrina cristã, dando-lhes formação espiritual, de cunho acentuadamente mariano.

Dum porte digno e simples, a vida de silêncio que levava, o recolhimento com que a viam na igreja, induziram algumas raparigas a travar maior conhecimento com Paula. Entre elas, figura, em primeiro plano Mariana Danero. O encontro das duas foi um momento decisivo para a história do futuro Instituto.

De facto, nos domingos que se seguiram, Paula e Mariana passearam pelo Monte Moro, entretidas em conversas espirituais. De longe, outras raparigas amigas de Mariana Danero, acompanhavam-nas com a vista, esperando oportunidade de participar no diálogo. Quando Paula o notou, recebeu-as com a mesma simpatia, ficando todas unidas pela estima reciproca e pelo respeito para com a irmã do arcediago. Em Quinto, o apelo à vida religiosa tornou-se irresistível e Paula comunicou-o às companheiras. Nenhuma delas, porém, tinha o dote exigido nos Mosteiros, nem mesmo Paula; é verdade que no convento de S. Tiago e S. Filipe a receberiam, sem o dote completo, por lhe conhecerem a virtude e as qualidades humanas, mas parece que ela não encontrava suficiente pobreza nos mosteiros que conhecia.

Deste conjunto de circunstâncias nasceu em Paula Frassinetti a ideia de “dar vida a um novo Instituto que abrisse a porta também às jovens privadas de dote e no qual se praticasse a verdadeira pobreza religiosa, se atendesse à própria perfeição e ao bem do próximo”.

O papel de D. José Frassinetti na “pré-história” do Instituto foi de singular relevo, visto que colaborou intimamente com Paula a ponto de se ignorar onde germinou primeiro a ideia de uma fundação, se no pensamento do pároco, se no da irmã.

O arcediago procedeu com prudência. Vários sacerdotes respeitáveis foram consultados e deram o seu parecer favorável, entre eles, o Padre Bresciani, reitor da Casa Professa dos Jesuítas de Santo Ambrósio, em Génova. Importava, depois, sondar as disposições das jovens companheiras de Paula. Doze entre elas declararam-se prontas a abraçar a vida religiosa.
D. José quis assegurar, na medida do possível, a solidez da obra, alicerçando-a em fundamentos que as tempestades do futuro não arruinassem. Marcou, então, um ano de provas, em que, permanecendo em suas casas, as candidatas seriam exercitadas na mortificação e noutras práticas da vida religiosa, cuja direção ele assumiria.

Nem todas as vocações resistiram, findo o ano, houve desistências. D. José aparentemente abalado, desistiu também. Paula ficou sozinha, firme e imperturbável, na decisão de persistir no desígnio que se lhe afigurava manifesta vontade de Deus. Por intermédio de Mariana Danero convocou as que permaneciam fiéis, ouviu-as e deliberou prosseguir a empresa. O pároco, animado com a coragem que o pequeno grupo revelou, retomou a sua direção espiritual e intensificou-lhes a mortificação.

Faltava a Paula o consentimento paterno. Este surgiu, mais ou menos espontâneo, depois de o Senhor Frassinetti assistir a um sermão do filho, em que casualmente dissertou sobra a atitude dos pais, frente à vocação dos filhos.

Procurou-se, então, casa para albergar a jovem comunidade. Um andar de um prédio pertencente à capelania de Fravega, cujo aluguer de 120 liras anuais pareceu bastante módico.

A vida de Comunidade começou no dia 12 de agosto de 1834, com a Santa Missa ouvida na Igreja de Santa Clara em S.Martinho de Albaro, Génova, celebrada pelo arcediago D. José. Na celebração da eucaristia, Paula Frassinetti, Teresa Albino e Mariana Danero, por meio de voto de castidade, uniram a sua à oblação de Cristo. A cerimónia em Quinto foi extremamente simples. Na sala que funcionava como escola, foi armado um pequeno altar, com um quadro da Santíssima Virgem. Aí se reuniu i incipiente Instituto: Paula, Mariana Danero, Teresa Albino, Madalena Oliva, Mariana Serra, Madalena Pitto e Maria Carbone. D. José Frassinetti entoou o Veni Creator e fez uma prática sobre o ato transcendente que estavam a realizar. Terminou a função com o Te Deum, cantado certamente com a mesma intenção do tríduo preparatório, de ação de graças, feito na igreja paroquial, a fim de agradecer o resultado da fundação, qualquer que ele fosse.

Pobreza extrema, revelada na alimentação mais que frugal e no vestuário grosseiro; mobiliário rústico e insuficiente; trabalho árduo e mortificação intensa deram o tom de austeridade severa à primeira comunidade.

Começou logo a funcionar a escola para crianças pobres, que ocorreram em grande número e também se receberam algumas educandas internas. Dos arredores de Quinto e Génova foram chegando novas vocações, entre as quais Catarina Podestà.

Na Primavera de 1835, o conde D. Lucas Passi, de Bérgamo, fundador da Pia Obra de Santa Doroteia, numa das suas viagens apostólicas passou por Génova e tendo ouvido falar da recente comunidade da Madre Frassinetti, dirigiu-se a Quinto, na intenção de entabular conversações tendentes a confiar-lhe a sua obra, a fim de assegurar a continuidade. Depois de refletir e orar, a Fundadora sem se desviar do primeiro objetivo, aceitou o compromisso da Obra empenhando nela, de futuro, as Irmãs Mestras, com o voto de a promover. Ao mesmo tempo substituiu na sua jovem fundação o nome inicial de Filhas da Santa Fé pelo de Irmãs de Santa Doroteia.

No relógio da Providência ia soar a hora da primeira expansão. Foi seu instrumento o sacerdote D. Luís Sturla que confiou às irmãs de Santa Doroteia uma escola feminina em S.Teodoro para a qual foram destinadas Teresa Albino e Mariana Danero. Assim foi introduzido o Instituto em Génova no dia de Santo André de 1835.

A esta hora de alegria iam suceder-se, em Quinto, horas de graves apreensões. Nem todas as companheiras de Paula permaneciam no fervor das origens. Alguns criavam mal-estar na Comunidade, como Maria Carbone. As murmurações das pessoas de fora chegaram aos ouvidos da autoridade eclesiástica que advertiu o arcediago D. José.

Por seu lado, o Senhor João Baptista Frassinetti, vendo um teor de vida tão austero e o clima de desconfiança que se ia formando em volta da pequena comunidade, intimou Paula a voltar a casa, ameaçando-a, se resistisse, de empregar a força. Paula aproveitou as circunstâncias que lhe eram oferecidas fechando a casa de Quinto, prevenindo, secretamente, as irmãs que se mantinham fiéis, de que esperassem a ordem de recomeçar.

Cerca de mês e meio após a dispersão, a madre Frassinetti chamou as Irmãs que considerava seguras na vocação. Pela Páscoa de 1836, quatro meses e meio depois de ter fechado Quinto, Paula abandonou mais uma vez e para sempre, a casa paterna, a fim de se reunir à comunidade de S.Teodoro.

A partir desta época, o Instituto, enraizado, pôde ramificar-se em fundações e estruturar a vida religiosa. O primeiro noviciado abriu em Montagnola dei Servi em 1837; na sexta-feira da Paixão desse mesmo ano, a Madre Frassinetti, Teresa Albino, Catarina Podestà, Mariana Danero e Madalena Oliva vestiram o hábito preto para trazer por casa; a primeira vestição canónica far-se-ia em 1838, com a aprovação do Arcebispo de Génova, Cardeal Tadini. Eis o documento que a autentica:
“Em nome da SSma. Trindade, Pai, Filho e Espirito Santo, sob a proteção da Senhora das Dores e de Santa Doroteia, hoje, quatro de Março do ano do Senhor de mil oitocentos e trinta e oito, primeira Dominga da Quaresma, vestiram o hábito solenemente as seguintes Irmãs de Santa Doroteia, com aprovação de Sua Eminência Revma. o Cardeal Frei Plácido Maria Tadini, arcebispo de Génova, benzendo o hábito e fazendo-lhe uma exortação e instrução acomodada o Illmo. e Vermo. D.Lucas Passi de Bérgamo, instituidor da Pia Obra de Santa Doroteia”.

Seguem-se os nomes:
Irmã Paula Frassinetti
Irmã Barabino
Irmã Teresa Albino
Irmã Catarina Podestà
Irmã Rosa Podestà
Irmã Maria Sciaccabuza
Irmã Petronilla Albino
Irmã Mariana Danero
Irmã Madalena Oliva
Irmã Angela Boero
Irmã Luísa Rasore
Irmã Teresa Gamba
Irmã Francisca Marchese

A 10 de Janeiro de 1839 fizeram os votos religiosos, a Madre Frassinetti, Teresa Albino, Mariana Danero e Madalena Oliva, a que as três primeiras acrescentaram o da Pia Obra de Santa Doroteia.

Data desta época a direção e formação espiritual das Irmãs pelos padres da Companhia de Jesus. Entre estes destaca-se a figura do Padre Firmino Costa que pregou os primeiros exercícios espirituais à comunidade, segundo o método de Santo Inácio e com oportuníssimas exortações, imprimiu no Instituto a genuína fisionomia de instituição religiosa.

A primeira aprovação do Instituto e das Constituições das Irmãs de Santa Doroteia pelo Papa Pio IX, por Decreto de 24 de Agosto de 1860, completado pelo Breve Adolescentium Animos de 16 de Junho de 1863, baseou-se no que se chama Projeto Primitivo ou Plano Resumido das Constituições. É um pequeno código, de 2171 palavras, dividido em 18 Regras, que termina pelas atribuições do Cardeal Protetor, agrupada em três números.

Não se pretende fazer uma análise exaustiva da legislação que regulou a Sociedade das Irmãs de Santa Doroteia, até à aprovação final das Constituições de 1889, que vigorariam até 1966. Apenas, resumidamente, se apresentam as fases mais importantes da sua evolução até esta data.

O primeiro esboço de normas do Instituto deve-se ao arcediago D.José Frassinetti que o escreveu numa tribuna da sua igreja que dava para o altar-mor onde estava colocado o sacrário; simultaneamente, em baixo, frente ao mesmo altar, a Fundadora e as companheiras rezavam e imploravam a luz do Alto.

Em Maio 1841, a Madre Fundadora fixou-se em Roma para estabelecer e consolidar o Instituto, mediante a aprovação da Santa Sé.

Com o fim de determinar quais as Constituições por que se regeria o Instituto, a Madre Fundadora consultou sacerdotes experimentados, como alguns Padres da Companhia de Jesus, entre os quais, o Padre Gualchierani, reitor da Casa dos Exercícios Espirituais de Santo Eusébio; o Padre Speranis, reitor do Colégio Romano; o Padre Ratti, mestre dos noviços de Santo André, ao Quirinal; o Padre Bellotti, vice-superior da casa professa do Gesù e o Padre Firmino Costa. Resolveu então adotar algumas Regras da Companhia de Jesus.

Concluída esta árdua empresa, a Madre Frassinetti submeteu as suas constituições ao exame da Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares. Impôs-se um longo tempo de espera… Entretanto, para uso das Superioras, foi impresso em Roma, em 1851, um volume com 142 páginas, intitulado Constituições e Regras que continha um resumo histórico do Instituto, o Plano Resumido, uma prefação, constituições, etc.; entre as Irmãs, circulava, manuscrito, um sumário das mesmas, com uma parte referente à “conduta interior espiritual da Religiosa”, dividida em cinquenta e dois pontos; um regulamento geral para a “conduta exterior material”, chamado Regras Comuns, dividido em quarenta e dois pontos; Regras da Modéstia e ainda talvez, uma Instrução para dar conta da consciência.

A desejada aprovação da Santa Sé continuava a fazer-se esperar, dificultada pelas intenções do Conde de Passi de unir, sob a sua autoridade, todas as Comunidades de Doroteias que ele tinha fundado e disseminado pela Itália, ou as Comunidades que embora já existentes, tinham aceitado a sua obra.

Finalmente saiu emanado da Santa Sé o Decreto de louvor, de 22 de Agosto de 1855 relativo às Casas abertas nos Estados Pontifícios, e em 24 de Agosto de 1860, o Decreto de aprovação do Instituto e das Constituições, limitado aos mesmos Estados. Em 22 de Maio de 1863, o Papa corrigiu o Decreto anterior suprimindo a cláusula Pro Ditione Pontificia. A 16 de Junho de 1863, a Sagrada Congregação emitiu o Breve Adolescentium Animos de aprovação do Instituto e das Constituições, com base, como atrás se disse, não num corpo regular de Constituições, mas sobre um esboço, o Plano Restrito.

Texto retirado da:
História da Província Portuguesa das Irmãs de Santa Doroteia 1866-1910
Irmã Maria do Céu Nogueira
Linhó, 1967